Endometriose
A resposta curta é sim, mas com uma condição importante: precisa ser bem planejado.
Um estudo que reuniu seis pesquisas clínicas com 251 mulheres encontrou uma redução média de mais de 20 pontos na escala de dor entre quem praticou exercício de forma orientada, comparado a quem não praticou. Se você tem endometriose ou conhece alguém com essa condição, avance na leitura.
Além da dor, a mesma análise mostrou melhora de mais de 23 pontos na sensação de “perda de controle” causada pela doença, e ganhos significativos no bem-estar emocional. Isso não é um efeito qualquer, são números que mudam o dia a dia de quem convive com a endometriose.
A endometriose é uma doença crônica e inflamatória que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, ou seja, não é uma condição rara. Ela ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, causando dor pélvica intensa, cólicas incapacitantes e dor durante a relação sexual.
O diagnóstico costuma demorar entre quatro e onze anos, e estudos indicam que 65% das mulheres são inicialmente diagnosticadas de forma equivocada. O tratamento padrão envolve medicação e cirurgia, mas mesmo assim cerca de 30% das pacientes continuam sentindo dor após o tratamento principal.
Isso explica por que a ciência tem buscado alternativas complementares, entre elas o exercício físico orientado.
Sim. A revisão analisou seis ensaios clínicos controlados, considerados o padrão-ouro de evidência científica. Em uma análise estatística combinada com 71 mulheres, os resultados foram consistentes em três frentes:
Um dos estudos incluídos, conduzido com um programa de exercícios supervisionado de nove semanas, apresentou um efeito considerado grande pelos critérios científicos, tanto logo após o tratamento quanto um ano depois. Ou seja, o benefício não foi passageiro.
Esse foi um dos pontos observados com cautela pelos pesquisadores. Em um dos estudos, mulheres que participaram de um programa multimodal de exercícios apresentaram uma redução expressiva na dor durante o sexo, com efeito estatístico considerado substancial.
Outro estudo, que combinou exercício com o método de relaxamento muscular progressivo, mostrou melhora significativa também na saúde mental das participantes, avaliada por questionário validado. O grupo que se exercitou teve avanço estatisticamente relevante, enquanto o grupo de controle não apresentou mudança.
Este é um achado que poucas mulheres conhecem. Parte do tratamento medicamentoso da endometriose (com análogos de GnRH) pode reduzir a densidade óssea como efeito colateral. Um dos estudos analisados mostrou que a prática regular de exercício ajudou a recuperar a densidade mineral óssea no colo do fêmur após o fim desse tratamento, comparado ao grupo que não se exercitou.
Isso reforça que o exercício, quando bem prescrito, não atua apenas na dor: ele participa da proteção do corpo como um todo diante dos efeitos do tratamento clínico.
Aqui está o ponto mais importante deste artigo. Os estudos analisados usaram protocolos muito diferentes entre si: yoga, exercícios respiratórios, treinamento aeróbico, exercícios de estabilização lombopélvica e relaxamento muscular progressivo. Cada um desses protocolos foi construído para o perfil específico das mulheres participantes.
Isso significa que replicar um exercício “porque funcionou para outra mulher com endometriose” pode não trazer o mesmo resultado, e em alguns casos pode até ser inadequado, dependendo do estágio da doença, da presença de dor crônica sensibilizada, do histórico cirúrgico ou do uso de medicações hormonais.
Os próprios autores da revisão destacam que o tamanho das amostras ainda é pequeno e que a duração dos tratamentos variou muito entre os estudos. Isso não invalida os resultados, mas reforça que a aplicação prática desses dados exige avaliação individual.
Por isso, qualquer alteração na rotina de treinos deve ser construída junto a um profissional de Educação Física qualificado. Só esse profissional pode avaliar o histórico da paciente, dialogar com a equipe médica responsável e traduzir os achados científicos em um programa seguro, progressivo e realmente eficaz para o caso individual.
A ciência confirma: o exercício físico bem orientado é um aliado real no manejo da endometriose, com impacto positivo sobre dor, qualidade de vida, saúde emocional e até densidade óssea. Mas o benefício está diretamente ligado à qualidade do planejamento, não à quantidade de treino ou à intensidade por si só.
Se você convive com a endometriose e quer entender como a atividade física pode ser aplicada com segurança ao seu caso, deixe sua dúvida nos comentários ou agende uma avaliação. Cada corpo pede uma estratégia diferente, e é exatamente esse cuidado que faz a diferença entre treinar e treinar com propósito.
Prof. Esp. Fábio Cantizano
CREF: 16603-G/RJ
XIE, Min; QING, Xuemei; HUANG, Hailong; ZHANG, Linyun; TU, Qin; GUO, Hongying; ZHANG, Jing. The effectiveness and safety of physical activity and exercise on women with endometriosis: A systematic review and meta-analysis. PLOS ONE, v. 20, n. 2, e0317820, 13 fev. 2025.